ROTAS: URUGUAY

PARTE I – O VENTO CONTRA, A FAVOR DA MARÉ

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Partimos do aeroporto de Montevideo. Achei que montaria as bicicletas em uma hora, demoramos três. Partimos tarde, virados, sem dormir por causa da conexão sem nexo dos vôos. A meta era pouco mais de 40km até o primeiro camping. Fácil, se o cansaço e o sono já não estivessem batendo. “Bota o colete!” falei pra Carol que guiava em zigzag. Maya dormia tranquila no trailer. Deu inveja.

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Precisávamos cumprir a meta do dia ou atrasaríamos todo o plano. Paramos em uma praça pra fazer um café. Maya acordou e descobriu o parquinho que tinha ali. Faltava pouco pra chegar. Metade. Pedalamos uma ciclovia ao longo da costa até ela acabar em uma estradinha de asfalto que depois virou terra.

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Fizemos uma parada em Atlantida pra ver El Aguilla, encontramos um mercado e seguimos costeando até quase chegar ao camping. Parque del plata. Primeira parada. Assim que chegamos Maya já descobriu a torneira e nao queria sair dali. Montamos a barraca e nao tínhamos nem força pra cozinhar. Dropamos um macarrão e começamos a organizar os alforges. Assim que o sol se foi, já deitamos e colocamos o alarme pras 5 da manhã. A falta de sono já confundia o cérebro e a ficha ainda não tinha caído.

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Levantamos antes do sol. Ventava muito. Maya ainda dormia, colocamos ela no trailer e ela nem percebeu. Restava saber se o vento estaria ao nosso favor, ou contra. Pegamos a estrada e as bicicletas praticamente pararam. Nenhuma subida de Minas é pior que o vento contra do Uruguay. A meta do dia eram 50km. Com o vento nossa média era de 9km/h. Soma tudo isso com o sol e o resultado é que parecia que nunca iamos chegar a lugar algum. Do outro lado da estrada, cruzava o primeiro cicloturista que vimos. Ele parecia estar a uns 40km/h. Falei que nossos pneus estavam vazios?

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Posto de gasolina. Salvando ciclistas desde a invenção do automóvel. Descobrimos a felicidade. Enchemos o pneu, descolamos um wifi, uma sombra e ficamos ali mais de uma hora. Quando uma nuvem cobriu o sol decidimos que dava pra seguir. Passamos por várias praias desertas com muita vida selvagem. Tão desertas que não tinha nem onde comprar água se precisasse. Quanto mais perto, parecia mais longe. O Fernando pesa 63kg e o trailer cheio estava pesando pouco mais de 70, então, imagina. Nosso destino era o Camping Las Flores quase em Piriapolis e nada foi mais sofrido que a subidinha pra chegar até lá. Bem recepcionados(ganhamos desconto) e devidamente instalados, saimos a pé pra dar um pulo na praia e comprar o que seria nossa janta aquela noite. Maya descobriu um barquinho no camping e tava se sentindo no titanic. O vento ainda era presente e foi difícil até cozinhar no fogareiro, mas rolou. Comemos bem e dormimos melhor ainda.

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Acordamos duas horas depois do programado. No ritmo do dia anterior, não chegaríamos antes do almoço. Teríamos que dividir a rota em partes. Antes e depois do sol. Mas, quando o vento está a favor, meu amigo, é só alegria. Passamos por Piriapolis que pareceu bem bacana e decidimos incluir no roteiro da volta. Seguimos pela costa e começamos a passar por praias incríveis com casas de muito bom gosto.

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A um certo ponto o gps mostrava que deveriamos sair do asfalto e entrar em uma estrada de terra. Obedecemos e seguimos até chegar em uma porteira uns 2km depois. Ou abríamos a porteira ou voltávamos pra contornar pelo asfalto.

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Em Minas as porteiras ficam encostadas mas geralmente estão livres pra poder passar. Então abrimos e fechamos a porteira. Parecia ser a casa de alguém. De repente apareceu uma lhama, depois outra, aí apareceu um campo de golfe, aí apareceu uma casa cabulosa ao longe, e aí outra e aí quando vimos uma placa alguma coisa Federal percebemos que talvez não deveríamos estar ali. Ao longe víamos a silhueta do que parecia um policial nos esperando. Era um condomínio ultra gran fino rastreado por satelite e todos os moradores já sabiam de nossa presença. Pedimos desculpas, falamos que o gps mostrou aquela rua como pública e que abrimos a porteira achando que não seria um problema. Ai ele disse: “a porta da minha casa fica aberta e nem por isso qualquer um pode entrar”. Queria falar pra ele como é em Minas mas meu espanhol nao permitiria e nossas desculpas já amoleceram seu coração. Pediu nossos documentos, nos desejou boa viagem e ainda deu a dica de onde podíamos descolar mais água.

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Decidimos parar e esperar o sol baixar, entramos na primeira estradinha de terra que saia da Ruta e foi quando descobrimos uma construcao bizarra na beira mar. “É um observatorio de baleias” disse Enrique, um argentino que tem casa ali. Parecia um bom lugar pra fazer um almoço e ficamos ali por mais de uma hora. Voltamos pra estrada e já conseguiamos avistar a casa pueblo. Nosso destino era o camping ali perto, depois de uma subida tipo Minas. Chegamos tão rápido que o almoço aconteceu com a barraca já montada.

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O camping em Punta Ballena é bem grande e tem uma otima estrutura pra criancas e claro Maya já foi interagir na piscina. Decidimos que seria um bom lugar pra ficar mais de um dia e organizar os próximos. Compramos um chip de telefone uruguaio e conseguimos falar com o guia que faz a travessia em laguna rocha. Com a internet do camping também conseguimos falar com o mundo lá fora. Dormimos antes das 10. Acordamos e no nosso dia de “folga” decidimos, pedalar. Com as bicicletas mais leves fomos até a Casa Pueblo, descemos pra praia de Las Grutas e seguimos até Maldonado onde trocamos mais dinheiro e fizemos compras em um supermercado de verdade. Decidimos não passar por Punta del Este que já conhecemos de outras vezes. Vamos cortar o caminho e o dia de folga nem vai pesar no cronograma. Enquanto Maya desenvolve a coreografia do vento a favor, papai e mamãe se revezam na “cozinha”. Aquele hamburgão esperto e buenas noches.

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Las Grutas em Punta Ballena

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La Floresta

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Saída do camping de Parque del Plata

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Observatório de baleias

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pitstop pro sorvete em Ocean Park

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PARTE II – RUTA SIN CONTINUIDAD

O alarme tocou eram 5 da manha. Fora da barraca o frio era tanto que desistimos de partir aquela hora. Uma névoa cobria todo o camping e era impossivel ver mais de cem metros. Tinhamos 65km pela frente e parecia que não íamos cumprir a meta do dia. O trailer estava mais carregado que nunca. Tinhamos um estoque de 12 litros de agua e bastante comida. O proximo camping ia ser em meio as arvores depois de cruzar a Laguna Garzon.

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Sem passar por Punta del Este, cruzamos por dentro de Maldonado que estava acordando e o aroma de suas padarias pairavam pelo ar. Pedalamos uns 20km sem parar até La Barra onde nos rendemos à uma dessas padarias. Até então o vento se mostrava inexpressivo e tudo indicava que chegariamos ao “camping” para o almoço. Seguimos de La Barra até José Ignácio sem parar.

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Foi praticamente uma reta eterna. Se perdia de vista o fim da estrada. Fizemos nossa última parada em um posto e nos despedimos da civilização. Era o último ponto de apoio até o nosso destino no dia seguinte. Os próximos quilometros seriam cruéis. O tempo começou a mudar e o vento que estava quieto começou a vir em nossa direção. Se revezando no vácuo, vencemos o elemento e quando vimos já estávamos atravessando a ponte recém inaugurada em Laguna Garzon.

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O odômetro mostrava 60km e mais uns 5 pra frente já podíamos começar a procurar um bom lugar pra acampar. Depois da ponte a estrada virou terra e com a falta de chuva, costelas foram se formando no caminho e as bicicletas iam chacoalhando sem parar. Extremamente desconfortavel para os pulsos e o bumbum. À esse ponto, Maya já tinha aprendido a ficar em pé no trailer e parecia bem mais disposta que nós.

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Como já era hora do almoço, fizemos uma parada e pareceu um bom lugar pra acampar. Descansamos por meia hora e aí percebemos que talvez tinhamos alguma força pra continuar. Tinhamos combinado com um pescador de fazer nossa travessia pela Laguna Rocha no dia seguinte porque achamos que precisariamos dividir esse trecho. Dali até a Laguna seriam mais uns 25km. E depois da travessia mais uns 15.

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A Ruta 10, que é a estrada costeira Uruguaia, não tem passagem na altura da Laguna. Quando a maré está alta, a água passa por cima do banco de areia que separa a Laguna do mar e tudo vira uma coisa só. Então há duas maneiras de se fazer a travessia. Uma, empurrando a bike pela areia por dois quilômetros, se a maré estiver baixa. A outra, com o Pepe, um pescador da região, no barco dele. Empurrar o trailer pela areia estava fora dos planos.

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Decidimos seguir e ver até onde as pernas iam aguentar e quanto mais próximo à laguna, menos pedal no dia seguinte. A estrada ficava cada vez pior e a imensidão do vazio nos fazia parecer a última família do mundo. Pedalamos 20km contra o vento, sem trocar uma palavra. O sofrimento físico era enorme mas o psicológico parecia inabalado. Passamos pela saída que poderia nos levar de volta à civilização e fazer a volta pela Laguna passando pela cidade de Rocha mas ignoramos e seguimos nosso caminho. A primeira placa depois disso trazia os dizeres “Ruta sin continuidad”. Dali pra frente, não tinha mais volta.

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A Laguna Rocha é uma área de preservação onde já foram catalogadas mais de 300 espécies de pássaros. Chegar até lá não é tão fácil porém recompensável. Dos encontros mais inesperados, encontramos dois paulistas fazendo a rota contrária. Tinham passado pela Laguna empurrando as bikes pela areia.

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Faltando uns 5km pra chegar à Laguna parei pra comer os últimos tabletes de doce de leite, paçoquinha, barra de cereal e um pacote de biscoito. Talvez, sem essas preciosidades, não teríamos chegado. Agora que estávamos ali, precisávamos chegar do outro lado pra continuar. Eram quase 5 da tarde. Por sorte conseguimos falar com o pescador e ao longe vimos um barquinho vindo em nossa direção. Dessa vez parecia que o vento soprava a favor.

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Subimos as bikes no barco e Pepe partiu. Com uma profundidade de 50cm à um metro, o barco ia “encalhando” por todo o caminho mas nos sentimos bem seguros e Maya estava louca por estar ali. Vimos uns flamingos e umas outras aves que nunca tinha visto antes e falei pro Pepe como éramos gratos pela travessia. Ai ele disse que existem dois grandes Pepes no Uruguai. Pepe de Laguna Rocha e Pepe Mujica.

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Do outro lado, sãos e salvos, doídos e cansados, chegamos à uma vila de pescadores e não houve uma pessoa que não sorriu pra Maya.
O sol já começava a descer no horizonte e nós precisávamos chegar logo em algum lugar pra dormir. O gps mostrava mais de 90 quilometros, as pernas já não respondiam à cabeça e La Paloma parecia muito distante.

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Paramos pra pedir informação e o uruguaio fez questão de nos explicar tudo em português. Faltava uns 3km pra chegar em algum lugar. Quando um ciclista passou pela gente, perguntei se tinha um camping por ai acerca, ele sorriu e disse, logo ali, em 500 metros. Sorrimos junto. Pra quem já tinha pedalado 96km, já estávamos em “casa”.

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Parte III – LA PALOMA
Com o feito histórico do dia anterior, ganhamos um dia de folga em La Paloma e, com as bicicletas vazias, saímos pra conhecer a cidade. Fomos direto pra praia dar um mergulho e quando o sol começou a esquentar, passamos pelo farol, paramos no supermercado e voltamos ao camping pra lavar roupas. Conhecemos nossos vizinhos de barraca que nos emprestaram uma lanterna entre uma e outra cumbia enquanto Maya juntava lenha pra fogueira. Parecia que ia chover mas não choveu. Dormimos cedo que no dia seguinte tentaríamos pegar o caminhão das 10:30 pra Cabo Polonio. Depois desse, só às 13:30. Saímos no horário previsto e com o vento a favor, nossa média beirou os 20 por hora.

PARTE IV – PRA ONDE VAI ESSE NAVIO?

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Cabo Polonio é insano. Primeiro você chega à um terminal turístico bem moderno na beira da estrada e o local está sempre abarrotado de turistas completamente perdidos. Ali você compra um bilhete de ida e volta por 200 pesos que é o passe pro caminhão 4×4 que te leva até lá. Lá onde?

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Sete quilômetros de dunas separam o terminal da vila e você só tem duas maneiras de chegar. Nesse caminhão ou à pé. Existe também um caminho pelas dunas de Barra de Valizas. Alguns poucos residentes têm direito a entrar com carro. Nós trancamos nossas bikes no estacionamento e subimos no caminhão. São 7 quilômetros chacoalhando pelas dunas. Recomendo os assentos no topo, se disponíveis. Passando toda a areia, o caminhão ainda segue por um quilômetro pela praia e dalí já da pra ver a vila. Reza a lenda que o primeiro marinheiro que alí encalhou se chamava Poloni.

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Altamente badalada o ano inteiro, a ex vila de pescadores não tem luz nem encanamento. Acampar é proibido mas há quem vire as noites em sacos de dormir pela praia ou no sofá daquele bar onde tava rolando o som na noite anterior. Era o único lugar onde não dormiríamos em camping. Pela internet, tínhamos reservado um quarto no Lobo Hostel Bar. Ainda em cima do caminhão, avistamos o local e fomos deixar as malas.

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De cara, Maya já se enlouqueceu com as toras de madeira coloridas fazendo o calçamento da entrada. Atrás do balcão, Gastón, chef e proprietário do local, servia o café da manhã para alguns hóspedes e a brasileira Nadine que trabalha ali nos recepcionou. Um senhor dormia tranquilamente no sofá da entrada, amontoado de umas cinco camadas de roupa de cama e travesseiros. Era o pai de Gastón que durante a alta temporada dá uma mão sendo o caixa. Completando a família, Nana, esposa de Gastón, responsável por fazer tudo acontecer na maior paz e amor. Maya já se tornara íntima e a ajudava pelo convés.

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Convés porque assim que pisei lá me senti em um navio. Pode ter sido as duas cervejas. Da janela do quarto, víamos a praia, uma parte da vila e uma estufa com a planta recém legalizada no país. Na cama no chão, montada especialmente pra Maya, Napoleão, o gato guardião, dormia mais tranquilo que o pai de Gastón. Almoçamos ali no restaurante mesmo enquanto observávamos o ir e vir dos 4×4 e a cara de espanto daqueles que aportavam.

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Desembarcamos do “navio” e Maya já foi correndo até a praia. Entrou na água de roupa e foi difícil convencê-la a sair. Quero dizer, até descolarmos um sorvete. Dalí caminhamos até o farol onde ficamos observando os lobos marinhos e um vento gelado começava a dar as caras. Era hora do maior artigo de luxo de Cabo Polonio, um banho quente. E demos sorte. Logo depois uma fila se formaria. Com o cair da noite, fogueiras surgiam em cada casa e uma cerveja além da conta e você não conseguiria achar o caminho de volta até sua casa sem uma lanterna. No nosso caso, a lua fez as vias da lanterna e, depois que o olho se acostumava, parecia estar de dia.

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Depois de mais uma ou três cervejas, deitamos e acordamos no meio da madrugada ao som de palmas. O navio se transformara em uma arena e o vocalista da banda uruguaia La Vela Puerca fazia um show pra 60 malucos, todos cobertos para o frio polar. Algumas casas ao lado, o ritmo era eletrônico e aí descobrimos que Cabo Polonio vivia mais à noite.

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Maya acordou as 7 da manhã. Saímos pra dar uma volta e desse vez parecia uma cidade fantasma. Tudo fechado e as únicas pessoas na rua eram aqueles que dormiam ao relento sem ter conseguido tomar o caminho de volta pra casa depois da noitada. Passeamos pelas ruas, tiramos umas fotos,Maya fez amizade com uma portuguesa e uma uruguaia e ficou desenhando com elas, voltamos pra ver os lobos até que em um impulso, subimos no caminhão pra voltar pra estrada. Cabo Polonio é daqueles lugares que se você não for embora logo, você fica pra sempre.

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PARTE V – NÁUFRAGOS

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   De volta ao terminal de Cabo Polonio, almoçamos ali na lanchonete uma especialidade local que acabava de sair do forno e no estacionamento conhecemos dois casais de argentinos e três brasileiros de Canoas que viajavam de moto.

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   Voltamos pra estrada e um vento soprava à favor. Chegando na entrada de Aguas Dulces, a estrada afinou e ao longe surgiam o que seriam as únicas subidas da viagem. Passando por Castillos, começaram a surgir na beira da estrada umas tendas de produtores locais vendendo suas especiarias. Compramos um pote de doce de leite, um pão caseiro e um queijo artesanal.

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 Nosso próximo camping seria a maior surpresa. O elegemos como o melhor do Uruguay. Com uma área de 12 hectares, a 500 metros do mar, El Cocal levou cinco estrelas em privacidade, tranquilidade e recepção. Amir, um gaúcho uruguaio nos recebeu e era visível em seu sorriso o prazer de trabalhar ali. Maya já tirava a barraca da bicicleta e começava a desenrolar. Já familiarizada com o procedimento diário, buscava lenha e dizia: “Papai! Fogo!”. Do mirante do camping o farol de Cabo Polonio piscava ao longe. Era como um, nos vemos em breve.

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   O camping era tão grande e tão calorosa foi a recepção que decidimos gastar um dos dias livres alí. Acendemos a fogueira e a lua quase cheia nos sorria. O silêncio era absoluto e só era quebrado pelas ondas ao longe. O dia de folga foi dedicado a recarregar as baterias. Materiais e físicas.

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   Quando fomos nos despedir de Amir, ele disse “O que eu aprendi nesse trabalho é que eu acabo viajando sem precisar sair daqui. Eu nunca saí do Uruguay mas eu sinto que conheço boa parte do mundo. Cada um que entra aqui conta sua história e meu pensamento me transporta pra lá. Por isso gosto de conversar com cada um que passa. Eu me imaginei pedalando.” Obrigado Amir, nos vemos em breve com mais histórias.

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   Acordamos cedo, desmontamos a barraca, tiramos uma foto com o senhor proprietário do local que nos tratou extremamente bem desde que entramos ali e aí voltamos pra estrada. Era o trajeto final da primeira parte da viagem.

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PARTE VI – ONDE O VENTO FAZ A CURVA

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Depois de dois bons dias de descanso no El Cocal, chegávamos ao nosso último trecho da ida. Saindo do camping bem cedo, o sol cortava os longos eucaliptos e iluminava o caminho de uma forma especial. Já tínhamos percorrido mais de 300km e nos sentíamos como se sempre vivêssemos na estrada. A falta de acostamento já não nos incomodava. Aquela Ruta era nossa, nos sentíamos parte dela. Já não importava se o vento estava a favor ou contra. Sabíamos que era nosso destino estar ali.

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Um giro no pedal e uns 30km depois, chegamos a Punta del Diablo e foi só aí que a ficha caiu. Tínhamos cruzado boa parte da costa do país puxando nossa filha no trailer. Tudo que passamos, todas as pessoas que conhecemos, todos os sorrisos que ganhamos se misturavam em nossas mentes e tudo fez sentido quando paramos em uma padaria e Maya disse “Hola!” pra moça atrás do balcão. Foi aí que percebemos que ela sabia o que estava acontecendo e que até o jeito de cumprimentar era diferente. Conti as lágrimas de emoção e sorri silenciosamente enquanto ela voltava pro trailer com o pão na mão. Tínhamos triunfado.

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Seguimos até o camping De La Viuda e montamos a barraca ainda de manhã. O plano era ficar dois dias por lá antes de tomar o caminho de volta até Montevideo. Em uma barraca próxima, um casal de artesãos argentinos escutavam uma música tão transcendental que, por um momento, nos fez pensar se não deveríamos ficar ali pra sempre.

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Saímos com as bicicletas desarmadas e passamos na pousada do Nicolas(El diablo y el mar) onde ficamos no ano anterior pra dar um oi. Ele disse que esta temporada, Punta del Diablo estava mais tranquila e que os adolescentes que causavam por lá escolheram La Paloma esse ano. Lembrei dos nossos amigos da cumbia do camping. Seguimos para o centro e como ainda era cedo, alguns lugares estavam fechados. Fomos à praia e Maya ficou uma hora na água, até os dedos enrrugarem.

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De bicicleta conseguimos ir a todos os cantos da cidade, coisa que jamais teríamos feito à pé. Maya acenava e fazia sucesso por onde passava. De volta ao camping, compramos um biscoito caseiro de um local que os vendia de bicicleta, ele disse que a sobrinha dele também se chamava Maya. No fim da tarde, pra comemorar, voltamos à praia e nos sentamos no Bendito bem na esquina, exatamente por onde o vento passa, vindo do mar. Junto com ele, o frio, e nossas blusas estavam no camping então nem duramos muito. Um mojito, uma cerveja e um frango à milanesa. Tinha um cara vendendo churros feitos na hora, tentei comprar mas ele estava sem açúcar. Falei que voltaria no dia seguinte. Voltamos ao camping, a música transcendental argentina ecoava. Foi fácil dormir.

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O reloginho da Maya nos acordou às 7 gritando “bikini! Bikini!”. A atendemos e seguimos pra praia ainda vazia. De lá, começamos a procurar óleo para as bicicletas. Tínhamos trazido óleo mas a maresia uruguaia é cruel. As correntes pareciam estar entrando em estado de decomposição. Até os discos do freio já começavam a enferrujar. Encontramos uma loja de ferramentas na entrada da cidade e um óleo para motos resolveu nosso problema.

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Almoçamos no camping e Maya só queria ovo. Comeu três. No fim de tarde, descemos pra rua principal e ventava muito. A areia que ele trazia da praia deixava todos da rua cegos. Passamos no mercadinho de artesãos e de longe avistei o cara do churros.

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Foi o melhor churros que já comi. Voltamos ao camping e vimos dois caras desmontando os alforges de suas bicicletas. Era Felipe e Gustavo, paulistas, artistas e que também estavam viajando pela costa. Descolamos uma cerveja e improvisamos uma mesa. Não duramos muito porque no dia seguinte já iniciaríamos nosso retorno. Mal sabíamos que a previsão pra noite era de chuva e a tempestade molhou todas as nossas roupas que secavam.

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Como tínhamos alguns dias livres no planejamento, decidimos ficar mais um dia. De manhã, praia com direito a suco no quiosque à beira mar e quando passamos no mercado pra fazer as compras do almoço, Maya ganhou uma banana da feirinha, de tarde, compramos mais umas cervejas e descemos de novo com Felipe e Gustavo. Sentamos em um barco abandonado na areia e ficamos ouvindo a banda que tocava no bar da esquina bossa nova com sotaque enquanto a lua aparecia gigante no horizonte.

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Vi o cara do churros, ele se lembrou da gente e fez questão de nos presentear dessa vez. Tirei uma foto dele com a lua ao fundo. Gracias Marco Rodrigues. Fazia todo sentido ter ficado um dia a mais. De volta ao camping, a previsão era de tempo bom. Já estávamos com saudade da nossa estrada.

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PARTE VII – NAVEGAR É PRECISO

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Era o início do fim. De agora em diante, só ficaríamos mais próximos de Montevideo. Saímos cedo de Punta del Diablo por um caminho secundário e nem pudemos nos despedir da cidade. Segundo o google maps, o trajeto seria de 58km até Barra de Valizas e pegando essa saída, já cortávamos 3km. Assim que chegamos ao asfalto vimos dois adolescentes voltando à pé da balada, desesperados por uma carona. Pediram carona até pra gente. Um quilometro à frente, eles nos passariam na maior alegria do mundo na caçamba de uma caminhonete.

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A primeira parada foi nas barraquinhas de doce de leite na beira da estrada, compramos mais um pão caseiro pra vencer o trajeto do dia. Foi quando vimos no aplicativo maps.me que existia um trecho aparentemente de terra que não passaríamos por Castillos e cortaríamos direto pra Aguas Dulces diminuindo o caminho em mais uns 10km. Nem pensamos duas vezes, quando chegou a hora, entramos pra estrada de terra.

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Logo nos primeiros 100 metros, vimos a primeira cobra viva da viagem. Devia ter um pouco mais de um metro e parecia venenosa. Mais uns cem metros à frente uma lebre se assustou e atravessou a estrada. A falta de marcas recentes de pneu no chão, denunciava que aquela estrada não era frequentada à dias. Breve descobriríamos porque.

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A estrada foi se afinando, aos poucos a terra foi dando lugar a grama e quando nos demos conta, nem podíamos mais chamar aquilo de estrada. Dos dois lados, cavalos e vacas, que faziam a alegria da Maya dentro do trailer. A nossa única referencia era a linha que seguíamos no celular. Até que chegamos a uma cerca.

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Nossa experiência em pular cerca no Uruguay, no inicio da viagem, não foi das melhores. Porém, ja tínhamos pedalado 5km por aquela estrada e voltar estava fora dos planos. Então esperamos. Esperamos até que.

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Parecia miragem quando os três gaúchos surgiram no horizonte. Pensamos em duas coisas. O castigo vem à cavalo. A salvação vem à cavalo. A esse ponto já não sabíamos se estávamos em propriedade privada e de longe, já começamos a nos desculpar. Eles riram. Ai nos explicaram que aquela ali, apesar de não parecer, era a Ruta 10, esquecida no tempo e a porteira era de um fazendeiro que não tinha dinheiro pra fazer uma cerca lateral e fechou a estrada mas que podia passar. Depois falou que no trevo de Aguas Dulces ia ter outra porteira e que podíamos deixar aberta que eles iam sair por lá também.

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Saimos pela porteira indicada e um tatu gigante apontava a direção. Fomos recepcionados por uns 15 cachorros da casa na beira da estrada. Faltavam só uns dez quilometros até o destino. No trevo da entrada vimos um cicloturista vindo ao longe. Era Rafael de São Paulo que estava viajando toda a costa do Uruguay em sua bike dobrável aro 24 de três marchas. Depois fiquei sabendo que ele completou 800km de ponta a ponta. Valeu Rafa!

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Entramos em Barra de Valizas e escolhemos o primeiro camping que vimos, antes de entrar na cidade. Tocava Planta e Raiz enquanto montávamos a barraca. Maya brincava com um filhotinho de gato e tudo parecia bem tranquilo até que as 13 em ponto, começou uma technera e ai, não entendemos nada.

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PARTE VIII – TERRA À VISTA

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Juan é filho da dona do camping. É de Montevideo e durante o verão vem dar uma mão na organização. Nas horas vagas, é DJ e achou que seria uma boa substituir o reggae pelo house na hora do almoço. Agora com a barraca montada, decidimos sair pra conhecer Barra de Valizas. Fomos até a praia mas ventava tanto que substituimos a água por um sorvete artesanal de doce de leite pra alegria da Maya. A dica é pedir o sorvete pra crianças, vem a mesma quantidade do pequeno e custa quase metade do preço.

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Ficamos rodando pelas ruas sem rumo e depois passamos na feira de artesãos e várias crianças brincavam com bambolês. Claro, Maya tinha sua coreografia ensaiada e queria compartilhar com as novas amigas.

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Quando o sol se pôs, descobrimos uma padaria chamada Água na Boca. Tem a cozinha aberta e você pode ver todo o processo de fabricação dos pães de lá. Queríamos um pão tipo baguete, saímos de lá com uns 6 tipos.

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Na praça principal, acontecia uma movimentação. Uns percussionistas secavam as peles dos tambores em volta de uma fogueira. Diz que a umidade atrapalha os tons. Enquanto o som não começava, fomos até a praia ver a lua cheia nascendo no mar. Quando voltamos, já se ouviam os tambores de longe e de repente as ruas eram uma festa só.

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Voltamos ao camping e o reggae reinava de novo. Lanchamos e dormimos cedo. No dia seguinte tínhamos uns 50km pela frente.

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Saimos as 7 enquanto todo o camping ainda dormia. A previsão do tempo dizia que existia grande probabilidade de chuva por volta de meio dia. Se o vento estivesse ao nosso favor, não a encontrariamos. A primeira parada foi no Terminal de Cabo Polonio pra tomar um café mas não rolou que a máquina estava quebrada. Seguimos na esperança de encontrar algum outro lugar mas nunca aconteceu e ficamos só na agua mesmo. O vento nos empurrava e víamos a nuvem carregada se distanciando. Nosso destino era o camping Punta Rubia.

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Chegamos na portaria do camping e fui apoiar a bicicleta proxima a um banco na sombra. Um senhor, suposto proprietario, me gritou e disse: “aí não, para essa bicicleta pra lá.” apontando um lugar no meio do estacionamento com o sol de meio dia. Ai eu respondi:”vai ser rapido, so pra fazer o checkin e porque ali tem sombra”. ai ele ficou meio nervoso e falou: “entao, pare lá” apontando pro mesmo lugar. O banco à sombra parecia não ser usado há anos, não entendi e perguntei a Carol se ela não animava de sair fora e procurar o próximo camping. Ela disse sim na hora mesmo depois da gente ter pedalado 50km. Virei a bicicleta em direção a saída e o senhor insistiu: “nao entendeu? estacione lá”. Eu disse: Obrigado, não vamos ficar aqui. Pagar pra ser mal tratado? To fora. De todos os campings que ficamos no Uruguay, e foram mais de 15, esse Punta Rubia definitivamente não recomendo pra nenhum cicloturista. Voltamos ao asfalto e conhecemos o Renzo, uruguaio fazendo um tour pelo seu país. Nos informou que uns 2km à frente tinha um outro camping.

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Valeu a pena. Alem de ser mais barato, fomos muito bem recebidos no Camping PP. Escolhemos um cantinho com churrasqueira e ficamos organizando os alforges enquanto Maya juntava lenha pra fogueira.

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Por uma trilha no fundo do camping, chegamos até a praia e de lá dava pra ver tanto La Paloma quanto La Pedrera. À noite, conhecemos o Carlos e a Gleyds o casal carioca do Nas Estradas do Planeta (www.nasestradasdoplaneta.com.br) que viajam o mundo num camper bem bacana.

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Só quando eram quase 10 da noite que nos demos conta que no dia seguinte faríamos a travessia de volta da Laguna de Rocha e não tínhamos comprado nada pra levar. Íamos acampar no meio do nada pra quebrar o trecho de 96km que fizemos na ida. Precisávamos de mais água e comida.  Peguei a bicicleta e na escuridão total da ruta 10 pedalei uns 4km com mil vagalumes até o supermercado mais próximo. Minha lanterna não iluminava nem o pneu. Às vezes aparecia algum carro indo na mesma direção e dava pra ver alguma coisa. Quando aparecia carro contra, não conseguia enxergar um metro a frente. Demorei uns 40 minutos, o El Dorado em La Pedrera estava aberto e foi um sucesso. Voltar pedalando com todas as sacolas mais um galão de seis litros d’água, também. Dormimos cedo. O dia seguinte voltariamos pra estrada de terra. Já tava com saudade.

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PARTE IX – VOLVER

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No início da viagem demorávamos uma hora pra desmontar a barraca e arrumar tudo antes de partir. Hoje demoramos 20 minutos. O tempo estava fechado e um vento frio soprava a nosso favor. Passamos por La Paloma e parecia uma cidade fantasma. Ainda bem que lembramos de comprar tudo no supermercado na noite anterior. No trevo seguimos pela estrada de terra em direção à Laguna. Ligamos para o Pepe, o pescador que faria nossa travessia e até ele parecia ainda dormir. Nos encontramos no mesmo lugar onde ele nos deixou na ida.

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Falamos sobre os cicloturistas que passam por ali, sobre política, sobre aves, sobre a lagoa e sobre peixes. Estava feliz que na próxima semana viria um grupo de pesquisadores que já o tinham contatado via internet. Do outro lado da Laguna, nos despedimos e ficamos observando seu barquinho desaparecer no horizonte. Maya dormia desde que saímos do camping e nem viu nada da travessia dessa vez. Só acordou quando o barco aportou.

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Eramos os unicos por ali. Sentamos em um deck de madeira e preparamos nosso café da manhã. O céu comecava a ficar azul desse lado da Laguna. Era hora de guardar os casacos e passar o protetor solar.

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Por mais sofrido que tenha sido esse trecho na ida, era o mais bonito. Era bom estar ali de volta. Era bom ter toda a estrada pra gente sem nenhum carro. Os únicos barulhos eram dos passarinhos ou da Maya gritando “Opa!” quando passava em alguma pedra.

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Chegamos ao “camping” antes de meio dia. Era exatamente o mesmo lugar que tínhamos planejado acampar na ida. Parecia ser o lugar ideal. Tinha até uma fogueira pronta provavelmente de outros que já montaram a barraca ali. Mesmo ventando, conseguimos fazer um macarrão usando os isolantes térmicos pra bloquear o vento. Dali até a praia eram uns 100 metros. Nao dava pra entrar porque estava cheia de agua viva.

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Não estávamos nem um pouco cansados e olhando no mapa, vimos que dava pra chegar ate o camping de San Rafael logo depois de La Barra. Não era tão perto mas também não era impossível. Já tínhamos andado 42km e ate lá seriam mais 38km. Decidimos seguir.

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Passamos pela ponte em Laguna Garzon, ali a estrada volta a ser asfalto e pedalamos até o posto de gasolina no trevo de José Ignácio. Compramos um sorvete pra Maya e uns alfajores. Mais uns 25km e estaríamos no camping.

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Acontece, meu amigo, que no Uruguay o vento muda de direção e intensidade, do nada. Saindo de Jose Ignacio, demoramos mais de 3 horas pra percorrer 25km no plano. O vento era tão forte que as vezes batia de lado e nos jogava pra fora da estrada. Só dava pra alternar entre primeira e segunda marcha, à 7 quilômetros por hora.

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Pior que brigar com o vento foi o caos que encontramos quando chegamos em La Barra. Além de muitos motoristas imprudentes com placas da Argentina, um transito de dar inveja a São Paulo. Seguimos por uma rua paralela menos caótica. Passamos pela ponte ondulada e quando pegamos a rua do camping, o sol já se despedia no horizonte. Fez todo o sentido o camping se chamar San Rafael.

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PARTE X – LA CHIVA

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San Rafael foi o primeiro camping em que não escolhemos onde acampar. Alfredo, um jovem da recepção, nos conduziu até a nossa área. Montamos nossa barraca e quando estávamos pra acender a fogueira, nossos vizinhos chegaram, de bicicleta. Foi aí que percebemos que duas barracas ao lado, também tinham bicicletas. Do outro lado, também. Foi ai que entendemos porque não pudemos escolher o local. O camping “separa” cada tipo de viajante por tipo de tribo. Fizeram bem! Conhecemos um casal figura. Chris é de Manchester, vive há três anos em Buenos Aires e namora Tamara, argentina da capital e responsável por fazer a cicloviagem acontecer. Chris nunca tinha viajado de bicicleta e topou. Saíram de Buenos Aires e o destino final deles é o Rio de Janeiro. Como ainda iam passar pelo caminho de onde estávamos voltando, queriam todas as dicas. Pra isso, descolaram algumas cervejas e o melhor vinho de caixinha do mundo, Molinari. O que era pra ser uma rápida troca de informações, se transformou em casos e gargalhadas noite a dentro. Foi ate difícil encontrar o caminho de volta à barraca que se situava à três metros da mesa onde estávamos. Ainda bem que a gente tinha o dia seguinte de folga. Eles, não.

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Acordamos cedo com Maya como de costume e como era day off, resolvemos chutar o balde e lavamos nossas roupas na lavanderia do camping. Sim, lá tem lavanderia. E sim, valeu a pena. Não sentíamos o prazer de uma roupa limpa de verdade há umas duas semanas. Chris e Tamara desmontavam a sua barraca sem pressa enquanto perguntavam algumas coisas que se misturaram com o vinho da noite anterior.

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Ficamos o dia inteiro no camping. Tomamos café da manhã (com café 3 corações) com um casal de Ipatinga. Fernando e sua esposa foram até Ushuaia de carro e estavam no caminho de volta pra casa. Organizamos as roupas limpas, gastamos um tempo na internet, jogamos futebol com Maya, catamos lenha, fizemos fogueira e deixamos tudo pronto pro dia seguinte. Não íamos pedalar muito mas queríamos sair cedo pra passar por Maldonado enquanto a cidade dormia para evitar o caos da cidade e trânsito com o trailer.

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Acordamos mais cedo que o previsto. Como não tínhamos o que fazer no camping, decidimos partir e mudar a rota. Como todo o Uruguay ainda dormia, resolvemos passar por Punta del Este só pra Maya ver a escultura de Los Dedos. No caminho, um grupo de ciclistas já treinava a beira mar. Um senhor de cabelos brancos pedalando uma Colnago vintage, ficou pra trás do pelotão e nos gritou perguntando se estávamos viajando a costa do Uruguay. Respondemos que sim e ele gritou que nos viu na televisão. E puxou o ritmo pra alcançar o pelotão. Não entendemos nada.

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Passamos pela escultura e ai paramos em um mercado em Maldonado. Maya ficou de gracinha pra um menino do outro lado da rua mas ele estava de bike, então de boa. Voltamos ao camping em Punta Ballena e dessa vez foi a vez do cara da portaria não entender nada. Acho que rolou um dejavu. Foi o único camping que repetimos na viagem.

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Meu primo Matheus estava de viagem marcada pro Uruguay com a namorada e por coincidência dos destinos nos encontramos no camping em Punta Ballena. Como no dia seguinte já seguiríamos nosso caminho, e eles iriam direção contraria, decidimos fazer um programa juntos. Fomos ate a LaPataia, uma fazenda produtora de doce de leite e derivados, aberta ao publico. Do camping ate lá são 4km por uma estradinha de terra. Carol foi no meu quadro e cedeu sua bike ao Matheus que levou Karyne no guidon. Maya, dormia no trailer e só acordou quando chegamos lá. Além de poder comprar as especiarias de doce de leite, você pode ver todo o processo de fabricação e até dar um rolé nos cavalos que eles tem por lá. Colocamos Maya num desses e ela pirou. A volta ate o camping, no escuro e sem lanterna foi outra aventura. Na portaria, conheci Juan, cicloturista argentino e Rafael, cicloturista chileno e este me deu uma dica bacana pro dia seguinte. Pegar a entrada pra Punta Negra na estrada pra Piriapolis. E foi o que fizemos.

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Saímos eram quase 10 da manhã, o dia mais tarde de todos. Nos despedimos de Matheus e Karyne e voltamos pra estrada. Dessa vez, a Interbalnearia, tipo uma BR nossa. Pedalamos uns 10km até que do outro lado, uma portaria nos pareceu familiar. Era o condomínio que entramos por engano no inicio da viagem. Enquanto apontávamos pra lá, o guardinha que pediu nossos documentos naquela ocasião, saiu da guarita e nos acenou com um sorriso no rosto. Uns 2km à frente pegamos a entrada pra Punta Negra. A paisagem imediatamente se transformou de “rodovia da cana de São Paulo” para “estrada bucólica da Toscana.”

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Falando em paisagem, esse é um trecho bem bonito. Punta Negra, Punta Colorada até chegar em Piriapolis. E chegar em Piriapolis parece ser voltar no tempo. À beira mar, umas mesas e cadeiras esculpidas na pedra, espaço publico, e de quebra varias churrasqueiras espalhadas por ali. Ao fundo, as poucas “montanhas” da região compõem o cenário. No inicio da viagem não estava nos nossos planos ficar por ali mas imaginávamos que fosse completamente diferente.

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Depois que passamos na ida, decidimos ficar dois dias por lá na volta. Entramos no primeiro camping que encontramos. Do time de futebol de Piriapolis. Assim que chegamos à recepção, a minha corrente explodiu. Pode ter sido a corrosão somado a carga mas uma coisa é certa, não use corrente de 10 velocidades para cicloturismo. Eu tinha a chave de corrente em mãos e foi facil remendar a corrente com o próprio elo que ainda estava ali no chão. Nem precisei usar o link que tinha levado. Miguel, o senhor da portaria, achou que a única solução seria uma nova corrente e por isso não pedala há 6 meses. Aconteceu o mesmo com a sua e agora ele vem pro trabalho à pé. Falei que ele podia trazer a bike que arrumava pra ele.

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O camping do time de Piriapolis é gigante. Foi o mais barato da viagem e o local parece uma cidade. Me senti no festival de reggae Rototom. Escolhemos um lugar que parecia ser bem tranquilo, ao lado do campo. Duas meninas que estavam indo embora nos ofereceram a lenha que tinham. De um lado, uma família desmontava sua barraca e Maya brincava com o filho, um pouco menor que ela. Do outro, um gringo mochileiro sozinho, montava sua tendinha. Era Henrik, alemão e veio pro Uruguay para viajar por dois meses. À pé, saímos pra conhecer a cidade. Caia uma chuva tão fina que nem incomodava. Andamos pelo centro, passamos em um supermercado e voltamos ao camping. Qual não foi nossa surpresa em retornar e descobrir que a família que se foi deu lugar a 6 malucos, loucos por futebol, com um som de dois andares e várias caixas de cerveja. Quando você acha que tá ruim, pode piorar. Por volta de 10 da noite, chegaram mais 5 e ao que tudo indicava, estava só começando. Dormimos antes do soundsystem atingir o auge.

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Acordamos e de bicicleta, fomos até o porto, de onde tínhamos a melhor vista da baía. Às 9 ia rolar uma competição de travessia a nado e dali assistimos a primeira bateria. Descemos até a praia e depois ficamos rodando pelas ruas. Curioso que todo o centro é demarcado com aquelas zebras das curvas de pista de corrida. Imagino que devem ser pra kart. Vou pesquisar. Em frente ao camping, ao lado da pista de skate, estava rolando uma feira que tinha de tudo. desde frutas até capacetes. De volta ao camping, Henrik perguntou se acenderíamos a fogueira de novo. É que ele é vegetariano há 7 anos mas que desde que chegou ao Uruguay viu tanta carne que se rendeu aos instintos e comprou um “pedacinho” só que não tinha panela nem prato, nem garfo. Segundo ele, valeu a pena.

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Quanto aos malucos do futebol, já eram mais de 20 e tínham dominado toda a área ao nosso redor. Quando escureceu, ai sim começou. Carol falou que eles tinham jogado um estrado de cama na fogueira. Quando fui ver, na verdade era a “churrasqueirinha” deles. Devia ter uma vaca inteira ali. A banda que alegrava a festa tinha 5 integrantes mas os vinte cantavam. Dormimos ao som do melhor pagode uruguaio.

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Saindo do camping, consertei a bicicleta do Miguel e ele ficou feliz demais. Era nosso penúltimo dia de pedal. Seguimos pela Ruta 10 ate Solis e saímos por uma quebrada depois do pedagio da Interbalnearia. Já começava a bater a saudade e ainda nem tínhamos ido embora. Na altura de Costa Azul, encontramos o melhor souvenir que um cicloturista pode ter. Uma placa de carro. Nossa viagem estava completa.

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Chegando em Atlantida, o transito era intenso devido ao último dia de férias. Faltavam poucos quilômetros para o camping mas em frente ao supermercado Tienda Inglesa tinha uma placa de Proibido Ciclistas na estrada. Atravessamos uma ponte e pegamos uma estradinha secundária. Na contra mão da estrada proibida, uma tiazinha de cabelos brancos pedalava tranquilamente sua “Ceci”.

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Chegamos ao camping e foi o único da viagem em que Maya teve que pagar. Uma família que estava indo embora nos deixou várias coisas, inclusive lenha. Aos poucos, o camping foi se esvaziando e no fim do dia não éramos mais de meia dúzia. Descemos pra “praia” pra despedir e de lá dava pra ver a cabeça de Águia que paramos no inicio da viagem. Era como começar tudo de novo.

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Comemos na lanchonete do camping enquanto Maya dançava com o cachorro da dona e depois acendemos a última fogueira do Uruguay antes de dormir. 23 quilômetros dali, estava o aeroporto, nosso destino no dia seguinte.
Separamos tudo que sobrou e o que podíamos deixar pra trás e passamos pra frente retribuindo o que fizeram pela gente. Os arredores do aeroporto fervilhavam. O ano tinha acabado de começar no Uruguay e parecia a hora certa de voltar pra casa depois de 775km pedalados pela costa.

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No aeroporto descobrimos que nosso vôo era as 6 da manhã do dia seguinte. Já tínhamos embalado as bicicletas e simplesmente aceitamos que ficaríamos por ali ate o avião decolar. Conhecemos todos os cantos e descobrimos que o melhor lugar pra dormir é lá em cima nos sofás sem braço. Mas graças ao Cristian, atendente da companhia aérea, não precisamos utilizá-los. Ele nos encaixou num vôo pra São Paulo à meia noite e conseguiu também mudar o vôo até BH. De novo, o vento do Uruguay estava à nosso favor.

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Maya descobrindo ser gaúcha

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Mesinhas beira mar em Piriapolis

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No porto de Piriapolis

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Uma parte do “pedacinho” que o Henrik comprou

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Pitstop da ida e da volta. Sombra, café com leite e wifi.

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Tal pai, tal filha

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Tal pai, tal mãe, tal filha

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À todos que cruzaram nosso caminho, muito obrigado. Vocês tornaram tudo mais simples. Seremos eternamente gratos e passaremos os ensinamentos à diante. Lembro do Pepe dizendo que nas áreas ali onde ele mora, como é menos populosa, as pessoas são menos contaminadas. Acho que isso se aplica ao mundo. Gracias Uruguay.

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Na verdade, Maya precisou do sofá no aeroporto.


Um comentário sobre “ROTAS: URUGUAY

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